terça-feira, 22 de maio de 2018

PRA FALAR COM DEUS








PRA FALAR COM DEUS
Bandeja de necrotério — Fotografia de Stock



Samuel Castiel




Inerte, nu e sem nenhuma emoção 
Quero  ficar assim mudo, estático 
feito cadáver estirado sobre a pedra fria
Sem pensamento algum a  transgredir a minha mente
Deixando apenas o ar úmido e morno 
Insuflar os meus pulmões suavemente ...

Não quero ninguém por perto desse morto
Nenhum residente ou legista ateu
Não quero o incômodo das orações 
Nem mesmo a luz tosca das velas...
Assim talvez possa eu longe das minhas  quimeras
Não ter sonho algum,  violação ou pesadelo 
Assim talvez  possa eu falar comigo mesmo,
Talvez assim  possa eu  falar com Deus!...


Maceió - AL, 22/07/17

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O ENIGMA DO TALISMÃ

O ENIGMA DO TALISMÃ

Samuel Castiel













                   Muitas pessoas acreditam piamente em talismãs.  Essa crendice atravessa os tempos desde épocas imemoriais.
                A palavra talismã provém da palavra árabe طلسم Tilasm, e também da palavra grega Teleo que significa "consagrar". Amuletos e talismãs são muitas vezes confundidos, porém enquanto o amuleto é um objeto com propriedades mágicas naturais, o talismã deve ser carregado com poderes mágicos pela pessoa que o cria. O ato de consagração ou "carga" é que dá ao talismã seus devidos poderes mágicos. O talismã é sempre feito por uma razão definida, enquanto um amuleto é usado de uma forma geral, tais como evitar o mal ou atrair boa sorte.[1] De acordo com a Ordem Hermética da Aurora Dourada, um talismã é "uma figura mágica carregada com a força que se destina a representar." Deve-se tomar muito cuidado durante a confecção de um talismã, pois as forças universais devem estar em harmonia exata com aquelas que deseja atrair, e quanto mais exato é o simbolismo, mais fácil será atrair a força.
                  Mas para Nivalda das Dores, mas conhecida por Dasdô, não interessava muito a etmologia da palavra talismã, nem muito menos a diferença entre amuletos e talismã. A verdade é que todas as suas   crenças em amuletos ou talismãs estavam abaladas e em franco descrédito. Tudo começou quando viajou para Aparecida do Norte, em São Paulo, numa peregrinação. Andando pelo  entorno da basílica, Dasdô deparou-se com uma estatueta de Santa Luzia, a protetora  dos olhos e da visão. Não exitou em compra-la. Em sua casa colocou a estatueta da Santa Luzia em um lugar de destaque. Afinal, aquela estatueta nada mais era do que um talismã vindo do Vaticano e, segundo o vendedor, fora benzido pelo próprio Papa. Os meses foram se passando e, sem perceber, a Dasdô viu-se perdidamente apaixonada por um cidadão  de meia idade, intelectual,  e com uma incrível força de superação pois conseguia fazer coisas incríveis e quase mesmo impossíveis para num cego. Dasdô em suas horas de meditação, pôs-se a pensar até que ponto aquele talismã da santa tinha ajudado a preservar a sua visão e seus olhos ou atraí-la para um amor arrebatador por um cego?  Viveu esse grande amor até que ele partiu desta para uma melhor!...Dasdô, por via das dúvidas, resolveu desfaze-se da “santinha”, doando-a para a igrejinha que frequentava aos domingos.
                 Passando férias em Salvador (BA) além do acarajé,  encheu o braço de fitas coloridas, amarradas em seus punhos e cada uma com um desejo específico, dos quais nenhum foi atendido. Apenas deixaram a Dasdô mais enfeitada e com um perfil de “riponga”. Mas, quando passou em uma daquelas ruelas do Pelourinho, deparou-se com outra estatueta intitulada de “monstrengo, o filósofo pensador”. Achou aquela peça interessante apesar da feiura e do aspecto disforme do personagem. Quando o vendedor falou-lhe que aquele amuleto atraía coisas boas a pessoa que o comprasse, inclusive um companheiro probo e de finos trato, resolveu compra-lo. Também passou a ter um local de destaque em sua mesinha de centro da sua casa. Ficou surpresa quando, meses depois começou a se relacionar com Alfredão, um cidadão realmente de fino trato, culto e educado. Sua decepção veio a cavalo, pois o Alfredão logo mostrou quem ele era: toda a educação e cultura eram só uma capa, onde se escondia um lobo vil, ambicioso, falso e também gigolô. Dasdô teve muito trabalho e despesas para se desvencilhar dessa figura que já representava seu quarto matrimônio.
                   Certa noite de sábado, sozinha em casa, abriu uma latinha de cerveja e ficou olhando para aquela peça do “monstrengo, o filósofo pensador”. Imediatamente, como num filme, vieram a sua mente as palavras daquele baiano que lhe vendera aquele amuleto. Esse deve ser um falso amuleto. Não em poderes nem força para atrair coisas boas. Foi até sua cozinha, pegou um martelo e triturou o “monstrengo, o filósofo pensador” jogando seus pedaços na lixeira.
                    Viajando a serviço pela Amazônia, Dasdô deu de cara com mais um amuleto ou talismã. Estava no Ver-O-Pêso, em Belém (PA), quando um caboclinho ofereceu-lhe um outro amuleto ou talismã, exposto numa das inúmeras barraquinhas que vendem ervas e talismãs milagrosos. Era um Gorila ou chipanzé em louça, segurando um cinzeiro. Como ela fumava, resolveu leva-lo, porém suas intenções eram outras, ou seja, queria encontrar um companheiro fiel e viver um grande amor!... Comprou e levou a peça toda envolta em plástico bolhado para não quebrar, pois segundo o caboclinho paraense, quando se quebra um talismã ou amuleto, seus efeitos e obras são contrários ao que se propõem.
                     No verão seguinte, já nem se lembrava mais do Chipanzé em cima de sua mesinha de centro, quando começou um outro relacionamento. Ficou intrigada por que dessa vez foi com um Negão grande! A princípio ficou com receio, pois era a primeira vez que iria ver a coisa preta!... Mas, enfim, queria e merecia viver um grande amor!...Programou uma viagem de carro vindo desde Recife até Porto Velho, em Rondônia. Durante a viagem foi muito divertido. Ele foi muito educado, um verdadeiro “gentleman”! Mas, quando a viagem terminou as coisas começaram a se deteriorar. O Negão revelou-se um dominador. Queria possuí-la como sua propriedade! E, as Dasdô nunca foi mulher para aceitar esse tipo de relação. Sem avisar, pegou suas malas, chamou um Uber e foi para o Hotel mis próximo. Dali dirigiu-se para o aeroporto e quebrou mais um talismã.
                     Dias depois, num momento de reflexão, ficou a pensar: esses amuletos e talismãs representam um verdadeiro engodo! As vezes conseguem seus propósitos mas não tem força para mantê-los. E, muitas vezes atraem coisas ruins!...Mas, afinal, nada é para sempre e a felicidade é muito fugaz... Quase se arrependeu de ter se desfeito de seus talismãs.

Nota do Autor: Qualquer semelhança com os personagens terá sido mera coincidência.



PVH-RO., 27/12/17

sexta-feira, 2 de junho de 2017

CORVOS NEGROS DE SOMOE

CORVOS NEGROS DE SOMOE 

Samuel Castiel Jr.























CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE
NESSA ALGAZARRA FESTIVA QUE FAZES
VOANDO SOB OS VERDES  COQUEIRAIS 
COM TEUS GRUNHIDOS ROUCOS,  ESTRIDENTES 
QUE MAIS PARECEM GRITAR PARA O HOMEM SURDO E INTOLERANTE 

TODOS SEUS MALES,
MOSTRANDO-LHE COMO A VIDA É BELA E SIMPLES...

CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE
PORQUE NÃO MANDAS-LHE  UM REPRESENTANTE TEU
COMO MANDASTE  PARA ALLAN POE
QUE REPITA AOS  OUVIDOS DESSE ATEU
INSISTENTEMENTE 
QUE O BEM MAIOR DA VIDA É A PAZ!...
QUE SE NÃO DESPERTAR  O PLANETA VAI
MORRER DESÉRTICO NA GUERRA E NO FOGO 

SEM TER NINGUÉM  NUNCA MAIS 
QUE CHORE OS SEUS TRISTES  AIS!...

CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE 
PORQUE TU, QUE ÉS AVE NEGRA E  AZARENTA 
MARCADA POR TODO PRECONCEITO,
PORQUE  TU NÃO VENS  LOGO DIZER 
QUE O SAPIENS HOMO PERDEU O SENSO
NO RASTRO  DA SOBERBA E DO PODER ?.

CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE
QUE REPRESENTAS  O BELO, O SIMPLES A NATUREZA 
NESSE TEU HABITAT SELVAGEM E VERDE
COM O MAR AZUL A TUA   FRENTE, O VENTO E O FARFALHAR 
DAS PALMEIRAS E DOS  COQUEIRAIS...
VEM LOGO E REPETE  AO HOMEM QUANTO É BELA A VIDA,
SEM GUERRA, NA QUIETUDE SINGELA DA PAZ!...

CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE 
DIZE-ME QUANDO SERÁ A TERRA OUTRA VEZ
O PLANETA AZUL DO UNIVERSO
EXPLODINDO EM VIDA  E  EM CORES 
SEM O FANTASMA PERVERSO
DA DESTRUIÇÃO, DA INSENSATEZ ?


E PASSA UM BANDO DE CORVOS 
EM VÔOS RASANTES SOB OS COQUEIRAIS:

-- AH! NUNCA, NUNCA MAIS!...





OBS: Escrito na ilha de Somoe, em Punta Cana - República Dominicana 

22/05/17.

sábado, 6 de maio de 2017

A REBELIÃO

REBELIÃO

Samuel Castiel









   


      Maike era o nome dele. Assaltante de Banco, perigoso é procurado em todo país, inclusive no seu próprio país, a Argentina. Branco, alto e louro, tinha olhos azuis e tatuado com sÍmbolos diabólicos e caveiras em quase todo o corpo. Maike foi procurado pelo Escrita Fina para pagar a taxa mensal cobrada por Tião Medonho, um negro brutamonte, que comandava os detentos a ferro e fogo! Era pra pagar as despesas do túnel. Porém Maike se negou a pagar e ainda ameaçou entregar tudo.
-- Não vou contribuir com porra nenhuma! -- disse o Maike. Diga pro Tião  Medonho pra parar de mandar me cobrar, pois considero isso um insulto -- e cuspiu nos pés do Escrita Fina.  Não acredito nesse plano que vai acabar ferrando todo mundo. E se ele continuar me enchendo o saco entrego tudo de bandeja.  Não tenho medo dele!
-- Mas Seu Mike...
--Não tem mais nem menos. Vaza daqui seu veado senão te quebro no meio!...
   Escrita Fina voltou cabisbaixo até chegar ao Tião Medonho.
-- Filha da Puta esse gringo! Pois ele vai ver uma coisa. Quem ele tá pensado que é?
-- Sei não Tião. Esse cara além de não  contribuir com nada pode estragar tudo, ferrar todo mundo.  Temos que ter calma.
-- Fica frio Escrita. Vou mostrar pra ele quem manda aqui!
    O Maike já tinha conquistado a liderança de um grupo dissidente que fora humilhado pelo Tião Medonho. Durante o banho de sol diário eles não se misturavam e ficavam se encarando e produzindo provocações. Muitas vezes iam as vias-de-fato e precisavam ser separados pelos agentes penitenciários. Os brigões então eram levados para o calabouço, chamado de "solitária" onde ficavam dias sem ver a luz do sol, a pão e água.
     Os dias iam se passando e com eles a tensão tomava proporções crescentes. O dia da fuga pelo túnel se aproximava. O túnel com mais de 100 metros ficara pronto. O dia marcado para a fuga seria num sábado, quando a segurança ficava menos ativa. Seria no horário da meia noite. Após saírem do túnel, já fora do presídio, todos fugiram tomando rumos diferentes, para dificultar suas recapturas. Tião Medonho estava nervoso e irrequieto.  Chamou o Escrita Fina e disse-lhe:
-- Escrita, alguma coisa  tá me incomodando. Nunca tive tão nervoso assim. Tô sentido algo estranho. Preciso me acalmar.
-- Calma meu querido chefe. O Escritinha aqui sabe como fazer você relaxar.
     Aproximou-se do Tião Medonho e, segurando seu queixo, com a outra mão tocou  com leveza o seu sexo. Aos poucos foi sentindo aquele volume crescer até  ficar rijo na sua mão. Tião Medonho então jogou o Escrita Fina na sua cama virando-lhe de bruço.
Em alguns poucos segundos, na escuridão da cela, seus gemidos foram ouvidos pelos demais detentos. O que se seguiu foi uma explosão e gritos de pavor, impropérios e pedidos de socorro. Vários disparos de arma de fogo. Tião Medonho de um salto pegou uma pistola que mantinha sob seu colchão.
-- Vamos embora Escrita. Chegou nossa hora. A liberdade nos espera. Tirou de sua cintura as chaves das  celas deixada na véspera pelo agente penitenciário que era seu cúmplice e fazia parte do plano. Os detentos começaram a tocar fogo nos colchões e a fumaça se espalhou rapidamente. Tião Medonho gritou para o Escrita Fina:
-- Comece a abrir as celas Escrita, mas só abra daqueles que estão com a gente. Aquele bando de frouxos que não quiseram se juntar a nós vão pegar fogo junto com os colchões.
--E o Maike, o que fazemos com ele?
--Esse é por minha conta!
    Correndo abriram as celas dos seus comparsas, com o Tião Medonho dando as instruções:
-- Corram todos para a cela 29 e entrem no túnel. Lá fora espalhem-se pra nunca mais  os malditos policiais nos encontrarem...
     O negão Tião Medonho chegou na cela de Maike com a pistola em uma das mãos e um ferro pontiagudo retorcido na outra. Era um chucro  feito especialmente para acabar com a vida de Maike. Aquele gringo filho da puta que o desafiara por muito tempo. Agora chegara a hora da vingança – Pensava Tião. A fumaça era densa, gritos eram ouvidos em todas as direções. Abriu a cela de Maike e começou a gritar.
-- Agora sai pra morrer seu gringo filho da Puta e covarde. Vou te soltar pra te matar!
   Mas ninguém saía da cela, ninguém respondia, Não havia ninguém na cela. E quando Tião tentou abrir a porta da cela, ela estava aberta. Na sequência `tudo aconteceu muito rápido. O cano frio do revolver de Maike encostou na cabeça de Tião Medonho.
-- Não se mexa nêgo safado! Agora você vai morrer! Quando ia apertar o gatilho, uma explosão no seu ouvido o atirou ao solo. Era o Escrita Fina que, vendo seu ídolo Tião prestes a morrer, veio por trás e, a queima-roupa, disparou na cabeça de Maike. Já moribundo, no chão, Maike debochou de Tião:
-- Você tem inveja de mim! Você é negro, eu sou branco e louroi, tenho os olhos azuis...
-- De que vão te servir esses olhos azuis, gringo maldito? Para os vermes comer ?...
    Uma golfada de sangue saiu pela boca e pelo seu nariz. Maike estava morto.
-- Vamos embora Escrita! Precisamos alcançar o túnel na cela 29. Corra com todas as suas forças! Estamos próximos da liberdade!.
    E saíram em desabalada carreira, envolvidos pelo fogo e uma camada densa de fumaça que os sufocava e os fazia tossir continuamente. Passaram e pisaram em cadáveres e cabeças decepadas e espalhadas pelo chão.
    Quando penetraram no túnel, a fumaça não dava quase nenhuma visibilidade.
    As lâmpadas estavam ligadas mas não dava pra ver quase nada no interior do túnel. Mesmo assim Tião Medonho e Escrita Fina corriam em desabalada carreira.
    Tião começou a estranhar as vozes e gritos que vinham lá de fora do túnel. Será que aqueles malditos comparsas estavam discutindo entre si?  Estava chegando ao final. Com a respiração ofegante, olhou pra trás e viu o Escrita Fina que parecia ser a sua sombra.
-- Corre home!
    Quando o Tião Medonho botou a cabeça pra fora do túnel, quis morrer: um pelotão inteiro de agentes policiais os esperava, com cães adestrados mostrando-lhes os dentes afiados. Várias viaturas policiais piscavam intermitentemente suas luzes vermelhas.
-- Não deu certo desta vez  Escrita. O maldito gringo nos entregou!...




PVH-RO,, 05/05/17


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O BARBA

O BARBA
Samuel Castiel Jr.












 Sempre detestou usar barba. Quando suava, coçava e dava alergia. Tinha que mantê-la sempre aparada. Dava trabalho. Preferia o martírio de um barbeador todas as manhãs. Além do mais, sua esposa sempre lhe dizia preferir homem de barba feita. Sentia coceira durante os  carinhos no conchego da cama.  Foi quando o Banco em que trabalhava anunciou que iria fazer demissões em massa com o objetivo de contenção de despesas, pois a crise estava se aprofundando. Entrou em pânico. E se ele fosse demitido?  O que iria fazer? Só tinha o curso médio. O que sabia mesmo fazer era a rotina daquele  Banco. Pensou, pensou. Conversou com a Carmita, sua esposa, passou algumas noites sem dormir e, finalmente,  ela decidiu que iria  fazer uma promessa. Caso ele não fosse demitido, deixaria sua barba crescer durante os próximos cinco  anos. Ele ainda argumentou, porque a barba?
__ Alfredinho, a promessa pra ser atendida tem que ser pra valer, ou seja, tem que ser exatamente com aquilo que priva  você, que  representa  pra você  um sacrifício! Entende?
__ Mas porque tanto tempo? Cinco anos!...
__ Pelo mesmo motivo, Alfredinho. Tem que ser pra valer!...
              Apesar de relutar, acabou concordando. Fez e sacramentou a promessa:  caso não fosse demitido do Banco,  deixaria sua barba crescer durante cinco anos, apenas mantendo sua higiene e aparando-a periodicamente.
              Para sua alegria, a relação dos demitidos saiu e seu nome não estava lá. A Carmita tinha razão, promessa tinha que ser pra valer!...
             Olhava-se todos os dias no espelho e via sua barba crescendo. Já não estava tão negra, pois alguns fios brancos começavam a surgir. Aos poucos foi mudando seu visual. No início achava-se esquisito. Parecia ser uma outra pessoa. Mas aos poucos foi se acostumando ao ponto de achar que sempre convivera com aquela barba. Por sua vez, Carmita já não o tratava como antes no aconchego da cama. Parecia um tanto fria, desinteressada no sexo. Mas, aquilo era perfeitamente compreensível. Agora ele era um homem barbado e ela sempre lhe dizia de sua preferência por homem bem escanhoado.
             O tempo foi passando,  até que completou o período prometido. Mas nem ele nem a sua esposa Carmita deram conta. Quando revirando sua gaveta no Banco, deparou-se com um rascunho que marcava a data da promessa. Exatamente cinco anos se passaram. Nada melhor então do que fazer uma surpresa  para a  Carmita. Preparou-se para ir a barbearia e tirar aquela promessa, ou melhor, aquela barba. Chegaria em casa de surpresa, sem aqueles pelos incômodos no rosto. Quando estava saindo do Banco, seu gerente o chamou e disse-lhe:
--- Alfredinho, vou precisar dos seus serviços hoje a noite. Vamos ter que fazer um serão, pois o pagamento do Governo chegou agora, e precisamos fazer esses lançamentos ainda hoje, pois amanhã  teremos que lançar esses créditos.
__ Mas...
__ Não tem mas nem menos. Sei que você gosta e precisa de umas horas extras, não é?
__ Ok. Vou só almoçar e vou também a barbearia tirar essa barba. Depois volto direto pro Banco.
     Pegou seu celular e ligou para Carmita, avisando o imprevisto e que teria que fazer aquele serão, pois foi um pedido direto do seu chefe.
     O serão acabou realmente tarde, quase meia noite, quando Alfredinho voltou para sua casa.
     A casa estava em absoluto silêncio. Estacionou seu carro na garagem e entrou. Carmita estava dormindo profundamente, pois roncava que ele podia  ouvir antes de entrar. Não quis acordá-la. Foi direto para o banheiro. Tomou uma ducha fria e, cuidadosamente, no escuro,  acomodou-se na cama, ao lado da esposa. Quando já estava quase a pegar no sono, Carmita  acordou-se  com o próprio ronco e aconchegou-se ao corpo do marido. Quando acariciou seu rosto, de sobressalto sentou-se e disse quase gritando:
__ Zezão, o que você ainda faz aqui home!!! Vaza, vaza, vaza que o barbudinho tá pra chegar!...
--- Heim?...



PVH-RO., 10/02/17.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SALA DE ESPERA
Samuel Castiel Jr.




 
    

     Ninguém gosta de esperar. Mas esperar na sala de médico ainda é pior. Talvez se equipare a sala de dentista quando você fica ouvindo aquela broca comendo solta. Mesmo sabendo que a anestesia evita a dor, aquele ruído de alta rotação parece que tem a propriedade de queimar os nervos!
    Fazendo essas conjecturas e comparações, totalmente absorto com meus pensamentos, encontrava-me na sala de espera do proctologista para o exame anual do novembro azul. Foi quando a batida em minha costa tirou-me dos meus pensamentos. Era o Jurandir, um velho amigo da época ginasial.
--Ei rapaz! Quanto tempo! Vais fazer também?...--e mostrou-me o dedo médio em riste.
--Não, quer dizer, vim só pra uma consulta de rotina.
--Já sei!  --exclamou triunfal o Jurandir! Estás com Hemorroida, não é? Dizem que esse médico  é muito bom!
    Parecia que o Jurandir se deliciava com o meu desconforto.
--Não Jura, não é hemorroida não!
    Ele não me deixava falar:
--Já sei então: é só fissura anal.
    Não tive mais dúvidas que o Jura queria mesmo era infernizar minha vida. Sabia que todos os pacientes daquela sala estavam se esforçando para segurar o riso. Ele falava alto, gesticulava,  não dava tempo pra defesa!
--Tive um amigo que sofreu muito de fissura anal e depois de hemorroida. Dizem que pode virar câncer...
--Calma Jurandir, não tenho nada disso! É só uma consulta de rotina.
--Eu sei, eu sei. Ninguém assume que tem hemorroida. Mas quando começa sangrar meu caro, não tem mais jeito, só o bisturi.
    O Jurandir continuou a falar até que a porta do médico se abriu e, sorrindo, o médico apareceu. Vestia um jaleco branco e meus olhos logo buscaram  suas mãos: eram enormes! Um frio correu minha espinha dorsal. Dirigiu-se a todos:
--Quem está na vez?
    Todos se entreolharam mas todos sabiam que a vez era minha.
--Pode ir Jurandir --disse-lhe eu apressado.
--De jeito nenhum! Você chegou primeiro, a vez é sua!
--Vocês vão ficar discutindo até quando? --falou o médico. Não posso ficar esperando. A recepção está cheia.
    Finalmente o Jurandir decidiu-se a entrar na minha vez. Mas antes que a porta se fechasse ainda fez um comentário em voz alta como sempre:
--Não fique nervoso Valfrido, esse medico é muito jeitoso!...
    A vontade que eu tinha naquele momento era uma mistura de vergonha e desejo de esganar o inconveniente Jurandir. Precisava fazer ou dizer alguma coisa.
--É isso aí gente! O Jurandir sempre foi assim, muito brincalhão, extrovertido!...
    Quando o médico novamente abriu a porta e anunciou:
--O próximo por favor!
    Houve um silêncio que foi quebrado pela voz do próprio Jurandir que vinha lá de dentro ainda arrumando a roupa e fechando o cinto:
--Agora é você Valfrido, não tem escapatória!
    Como não viu mais o amigo no recinto, comentou com o médico e com os demais pacientes:
--Eu sabia, doutor! Esse cara sempre foi um frouxo! Vai ver que fugiu com medo do seu dedo!...
Mas tinha me garantido que era apenas uma fissura anal...
--Próximo --chamou o médico.

PVH-RO., 13/01/17

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O ÚLTIMO NATAL

O ÚLTIMO NATAL
Samuel Castiel Jr.















         

               A cidade estava toda iluminada com lâmpadas coloridas. O clima de festa estava presente em cada rosto. Os bares cheios de homens vazios ou não. Nas ruas se viam as figuras extravagantes do Papai Noel fazendo parte da decoração. Os “shoppings” lotados de retardatários na busca de presentes.
          Apesar da chuva fina que caía, Antenor caminhava parcialmente molhado, coberto apenas por aquela manta velha quase toda furada, e que também lhe servia de cobertor  para protegê-lo nas noites de frio. O cabelo desalinhado, esbranquiçado  e a barba grande não permitiam reconhece-lo facilmente. Suas vestes sujas e surradas completavam o perfil de um morador de rua. Quando saltou na rodoviária  e tentou pedir informação sobre como chegar ao  bairro da Consolação, percebeu que muitas pessoas dele de esquivavam, julgando-o um pedinte inoportuno. Estava cansado e com fome. Continuou  a caminhar. Seu destino era ver, nem que fosse de longe, sua antiga casa que deixara a mais de vinte anos, quando fora dado como morto numa pescaria cujo barco afundou. Fora arrastado pelas aguas da cachoeira, bateu com a cabeça nas pedras mas conseguiu agarrar-se nos galhos e  chegou até a margem do rio. Quando acordou embrenhou-se na mata pensando que estava indo no caminho certo, porém se perdeu e ficou andando em círculo até que desmaiou e, ao acordar, ficou meditando sobre o que ocorrera: estava longe do local onde seu barco afundara. A força das aguas na cachoeira, as pedras, seu desaparecimento... Tudo levava a crer que ele teria sido dado como morto. Foi aí que uma ideia começou a se formar em  sua cabeça. Estava numa situação financeira péssima. Devia um valor impagável. Mesmo que vendesse tudo que tinha, não conseguiria quitar suas dívidas. A vergonha que teria de enfrentar perante a sua família. Pensou durante todo o dia e chegou a seguinte conclusão. Aquele seguro de vida que fizera, com sua morte,  seria suficiente para sua mulher e seus filhos sobreviverem. Com essa ideia martelando sua cabeça, decidiu-se: nunca mais voltaria para sua casa. Seria melhor continuar dado como morto. Caminhou  pela mata até  uma estrada onde pegou uma carona para chegar  numa cidadezinha no interior de Minas. Ficou ali morando nas ruas, alimentando-se com o que lhe davam das sobras dos restaurantes.  Aos poucos conseguiu sair das ruas, veio o emprego, foi melhorando progressivamente.  Os anos foram se passando e ele já estava se sentindo estabilizado novamente, quando naquele dia por um acaso ouviu aqueles homens da polícia conversando com o proprietário da empresa:
----Temos certeza que se trata da mesma pessoa. Aqui temos algumas fotos. Toda nossa investigação aponta que é essa pessoa e que está trabalhando na sua empresa.
              Não teve tempo de mais nada. Saiu apressado pela porta dos fundos e deixou tudo para trás. Perambulou pela cidade e foi se mudando primeiramente de endereços e depois de cidades. Dormia em pousadas, porém quando seu dinheiro acabou foi forçado a ficar pelas ruas. Voltou a se alimentar com as sobras de restaurantes. Pedia esmolas nos semáforos. Ouvia muitos impropérios:
---Vai trabalhar vagabundo!
---Não tem vergonha marmanjo! Vai procurar emprego!
             Mais de 20 anos se passaram, não queria mais aquela vida de fugitivo. A saudade de sua família era insuportável. Foi quando então que começou pensar em voltar. Não para ficar, mas queria pelo menos ver sua família de longe. Sua mulher Verônica, seus dois filhos Valter  e Luiz que deixara tão pequenos.  Esses meninos já deveriam ser homens...
              Continuava a caminhar por aquele bairro nas ruas que tanto conhecia. Ao longe avistou seu antigo lar. Era noite e havia pouca iluminação naquele local, o que lhe permitiu maior aproximação. A casa estava toda iluminada. Muitas pessoas reunidas. Aproximou-se ainda mais. Ouviu a música que vinha lá de dentro: Noite Feliz. Aproximou-se o mais que pode, escondido pelo muro e pelas grades. Lá estavam dois rapazes que reconheceu como seus filhos. Lá estava também Verônica, um pouco mais envelhecida, porém ainda linda aos seus olhos. Havia porém um homem ao seu lado com seus braços passados por sua cintura. Sentiu um frio percorrer e invadir seu corpo. Tinha certeza que aquele era o novo marido de sua amada Verônica. E o pior é que nada podia ser feito. Tida como viúva, tinha o direito de casar-se outra vez. Quando estava perdido em seus pensamentos, ouviu aquela voz forte bem perto de si:
--- Você aí! O que está fazendo olhando pra nossa casa? Se não disser quem é você vou chamar a polícia.
     Era o Luiz, seu filho mais velho.
--- Calma meu bom jovem! Só estou assistindo a festa de vocês. Também já tive uma família...
--- Está bem, se for assim vou mandar preparar um prato com as comidas da nossa ceia de Natal. Volto já.
--- Não, não se preocupe, já estou indo embora.
--- Agora sou eu que quero e insisto que fique! Não demora nada e nada tem a perder.
      Saiu quase correndo e não demorou a voltar com um prato repleto de comidas típicas do Natal.
---Onde está você? Pedi que ficasse! Aqui está o que lhe prometi.
     Não havia mais ninguém naquele local.
      A rua deserta foi iluminada por fogos de artifício explodindo no ar. Era meia noite! Luiz então com o prato de comida na mão, voltou para dentro de casa e sua mãe perguntou-lhe:
---O que faz você com esse prato na mão?
---Fui levar comida a um mendigo que olhava lá de fora para nossa festa. Mas ele se foi antes que eu voltasse. Pareceu-me uma pessoa estranha, mas  do bem. Disse-me que só queria olhar a nossa festa pois também já tinha tido uma família  que se perdeu no passado.
---Você e seu coração mole! Largue esse prato e venha abraçar sua mãe. O Menino  Jesus acaba de nascer!
     A chuva ficara mais grossa, mas Antenor caminhava pelas ruas e suas lágrimas misturavam-se com os pingos da chuva. Ele sabia que tinha perdido tudo irremediavelmente,  inclusive sua  família por quem dera tudo, sua própria identidade. Nada mais lhe restara! Ouviu então bem longe  o sino de uma igreja chamando para a missa da meia noite. Era a missa do galo. Dirigiu-se para lá, lentamente. Ao chegar, o padre fazia o sermão, que falava do espírito de salvação com o nascimento de Cristo, que veio ao mundo para salvar o homem de seus pecados. Ficou ali como se estivesse hipnotizado. Seu corpo ardia com febre. Estava molhado, cansado e com fome mas nada sentia. Sentou-se em uma cadeira bem no fundo da igreja, num cantinho bem isolado. Aos poucos seu corpo foi sendo invadido por uma sensação de êxtase e sentiu-se como se estivesse flutuando no ar. Como num sonho,  o Menino Jesus o  chamava e mostrava-lhe o caminho que deveria seguir.
                Ao amanhecer, o padre foi acordado bem cedo pelo sacristão que o chamava insistentemente, pois havia um homem morto, sentado no fundo da igreja e, pelos trajes,  parecia ser um mendigo.


PVH-RO., 23/12/16