segunda-feira, 26 de agosto de 2013

CORONEL DE BARRANCO

CORONEL DE BARRANCO

Samuel Castiel Jr.








                         




               “ Na Amazônia o homem trabalha para escravizar-se” – Euclides da Cunha


            Essa figura caricata aparece no cenário do ciclo da borracha, povoando predominantemente a região norte do País, mas tendo como matriz principal os seringais do Acre. Tinham quase sempre, invariavelmente, o mesmo perfil, ou seja,  na maioria eram homens rudes, ignorantes, brutos, esbanjadores, autoritários, sem estudo e muito ambiciosos. Apesar desse perfil, no fundo, alguns deles ainda eram capazes de atos de bondade.
             O ciclo da borracha acontece mais ou menos entre os anos de 1876 a 1926 , e se caracteriza pelos altos preços da borracha nas bolsas de europeias. A Amazônia com a maior floresta do planeta e clima tropical, dispunha das condições ideais onde floresciam imensos seringais da hevea brasiliensis.  A produção da borracha brasileira atinge seu auge até que teve sementes e mudas da hevea surrupiadas com a complacência dos próprios brasisleiros e levadas para Londres pelo inglês Henry A. Wickmam, onde iriam florescem no jardim botânico de Kew Garden de Londres, antes de serem levadas para o plantio ordenado em Singapura e na Malásia, segundo os fatos relatados no magistral romance de Claudio de Araújo Lima, intitulado "Coroneis de Barranco". A chamada “belle époque” dos seringalistas, sem que eles percebessem, estava com seus dias contados. Mesmo assim, continuavam a esbanjar dinheiro nas pensões de Manaus e Belém, fumando charutos cubanos, sem se aperceber do risco fatal que seus negócios iriam enfrentar. Já em 1914, a produção da borracha oriental supera a brasileira, coincidindo com o início da Primeira Grande Guerra. A borracha brasileira perde o valor drasticamente, sendo que nesse ano a sua produção não passou das 36 mil toneladas, contra 150 mil toneladas da borracha oriental. O declínio e o fim desse ciclo estavam estabelecidos.
            Coronel Joventino Florêncio, era um homem branco, forte, baixo mas atarracado, tinha bigodes grossos e cheios. Usava um chapéu com abas grandes que fazia parecer sua cabeça pequena para o corpo. Tinha a voz branda e falava baixo. Casado,  com seis filhos, sendo quatro meninos e duas meninas. Dona Inês, sua esposa, também alagoana, era uma esposa dedicada, cuidava dos filhos e fazia-lhe todos os gostos. Homem rude, ambicioso e ig- norante, cujo perfil o credenciava como coronel de barranco. Morava em Porto Velho, mas seu seringal ficava no Vale do Guaporé, estendendo-se por mais de quatro mil hectares de terras, cuja produção de borracha rendia o suficiente para dar ao Cel. Joventino uma vida de esbanjador. Cobria sua esposa Inês de joias de ouro de 18 kilates, dando-lhe presentes todas as vezes que viajava para Manaus ou Belém, com a finalidade de fechar grandes contratos de venda de borracha e comprar mercadorias para seu armazém no seringal. Nessas viagens, que demoravam cerca de dois meses, Cel. Joventino gostava de vestir-se com ternos de linho puro, bem engomados, calças vincadas e gravatinhas tipo borboleta de  bolinhas. Tinha uma coleção de diversas cores. Gostava também de usar sapatos mocassim, de pelica. Os perfumes de sua preferência eram os franceses. Bebia whisky, champanhe e licores também importados. Costumava frequentar as melhores pensões de mulheres em Manaus e  Belém.  Numa dessas suas viagens, arrumou um xodó com uma paraense morena, de coxas grossas, que  fazia ponto na Travessa 1º de março. Quase não voltou mais para o seringal!... Onde chegava era tratado com todas as honras pelas donas dos bordéis.  Pagava bebida para todas as mulheres que sentavam em sua mesa. Porém tinha as suas preferidas. Baforando charutos cubanos, deixava os ambientes esfumaçados, como o rastro de um esbanjador. Pagava muito bem todas as mulheres que com ele deitavam, dava presentes valiosos para elas e para as cafetinas que lhe traziam as meninas mais novas e mais recentemente chegadas a pensão. Com  o Cel. Joventino não tinha tempo ruim! – diziam as cafetinas, estimulando as meninas e ficarem com ele. Deixava saudade e também muito dinheiro quando tinha que voltar para o seringal. Mas tinha a certeza que seu gerente lá estava, tomando conta de todo aquele seu império e que seu problema não era dinheiro! A borracha produzida nas suas terras eram da melhor qualidade. Tinha comprador certo no exterior. Seus 200 seringueiros trabalhando nas mais distantes e espalhadas colocações, produziam o suficiente para que ele pudesse se divertir com aquelas mulheres jovens e fogosas!...Enfim não  tinha nenhum problema que pudesse afligi-lo ou tirar o seu sono. Sua mulher Inês como sempre dedicada, tomando conta da casa e dos seus filhos. E nada lhe faltava! Todos na cidade a respeitavam, era a mulher do Coronel Joventino. Portanto, nada tinha que lhe pudesse afligir. Aliás, quase nada, pois nas ultimas contratações que fez de seringueiros, vieram alguns que eram metidos a valentõe. Eram c hamados de brabos. Gente do sertão da Paraiba e de Pernambuco, que chegaram a Porto Velho fugindo da seca e precisando de trabalho. Tinha contratado alguns desses brabos, pois apesar de não terem quase nenhuma experiência na extração e coleta do látex, pareciam muito interessados em aprender o manuseio e a prática do extrativista da borracha. Além de tudo eram homens fortes, acostumados a intempéries da seca do nordeste. Sua única preocupação com eles é que não pareciam gostar das normas implantadas nos seringais, ou seja, as mercadorias necessárias para mantê-los no mato durante o mês, deveriam ser obrigatoriamente compradas no armazém do seringal, com os preços exorbitantes que o patrão estipulasse. Afinal, o custo para essas mercadorias chegarem até aquelas brenhas de mato era muito alto. Além do mais, o patrão tinha que ter uma boa margem de lucro, pois os seringueiros pagavam essas mercadorias e víveres com sua produção de borracha – argumentava quando alguém o questionava. O Cel. sabia que era uma vida difícil, mas nada podia fazer, pois entrava nessa labuta quem dela precisava! Já tinha tido alguns problemas no passado com seringueiros que se revoltavam com as normas do patrão, mas todos tinham sido devidamente punidos e alguns mais rebeldes até mesmo castigados. Jamais aceitava ter sua autoridade questionada, sequer ameaçada por qualquer um desses arigós que por  aqui chegavam sem eira nem beira, pediam emprego a ele que com pena do miserável acabava por empregá-los. Em troca queria apenas que fossem respeitadores, honestos e produzissem muita, mas muita borracha para o seringal. Não aceitava aqueles que eram solteiros, pois costumavam arrumar confusão na tentativa de roubar a mulher dos outros. Também não eram aceitos aqueles que tinham muitos filhos, pois crianças adoeciam e acabavam morrendo, dando muito trabalho e responsabilidade ao patrão, além de tirar o seringueiro da sua rotina de produção. Quando chegava o final do mês, a maioria ficava sempre devendo, pois sua produção era pífia, insuficiente para quitar seus débitos no armazém. Assim, o seringueiro ficava mais tempo no seringal, uma vez que só poderia pedir pra sair quando estivesse sem débitos na casa. Ele, Cel. Joventino,  achava isso tudo muito justo, pois afinal, todos podiam comprar os gêneros que quisessem no seu armazém que era sempre muito bem sortido.
             Numa de seus retornos ao seringal, o coronel ficou sabendo que o Abdias, um dos novatos que contratara mais recentemente, estava praticando furto de borracha, vendendo para invasores clandestinos que passavam periodicamente na sua colocação, distante dos olhos do coronel. Chamou seu capataz Valadão e o tropeiro Josias, homens de sua confiança, mandou que fossem de surpresa até a colocação do Abdias, checassem tudo, trouxessem toda a sua produção de borracha, e caso ele se metesse a besta, dessem uma pisa nele. Podiam dizer que foi o coronel que mandou e que caso ele continuasse a furtar a borracha para vende-la a clandestinos, não iria viver para apanhar outra surra!...Assim foi feito, trouxeram toda a produção e deixaram o pobre Abdias todo moído de chutes e ponta-pés.
---Isso é pra você aprender a não roubar mais o patrão, seu nêgo vagabundo! – dizia o Valadão, chutando suas costelas.
    Passaram-se semanas, o coronel sempre de olho nos  seringueiros que queriam dar uma de espertos, ameaçando sua autoridade e tentando fazê-lo de bôbo.
           Cumprindo sua rotina matinal, o Cel Joventino acordou 5:30h da manhã, tomou seu café puro com farofa de xarque, comeu algumas broas com ovos mexidos que sua cozinheira preparava-lhe todas as manhãs e foi para o armazém conferir os estoques de mercadorias, bem como o livro de contabilidade onde eram registrados todos os movimentos de caixa de cada seringueiro, e também  a receita dos contratos de venda. Analisou todos os empréstimos feitos ao Banco da Amazônia (BASA) nos últimos anos. Pela primeira vez  em toda sua vida no ciclo da borracha, teve uma sensação de que os negócios do seringal  não iam tão bem. O preço da borracha brasileira começava a despencar!... Lá pelas 9:00 horas chamou pelo Valadão, mas como não teve resposta,  lembrou-se então  de tê-lo mandado sair bem cedo para investigar e dar umas porradas em outro seringueiro que estaria também roubando a produção para vendê-la a clandestinos. Tomou um suco de carambola que estava na jarra em sua mesa e saiu do armazém, rumo ao seu barracão. Ao sair, ouviu o piado de uma inhambu, e pelo que conhecia, era uma inhambu azul. E ele sempre gostou muito de comer inhambu ao molho pardo, prato que sua cozinheira preparava como ninguém. Voltou ao armazém, pegou uma espingarda 20, com cartuchos e saiu atrás daquele piado da inhambu. Andou naquela vereda próximo ao barracão, depois foi entrando no matagal até chegar próximo ao rio. O piado da inhambu foi ficando mais forte até que, de repente, surgiu em sua frente o nêgo Abdias, mas não deu tempo nem chance para o coronel atirar. Puxou primeiro o gatilho de sua espingarda e uma língueta de fogo saiu do cano de sua arma, ao mesmo tempo que na camisa branca do coronel, uma enorme mancha de sangue surgiu no buraco que se formou em seu peito. A seguir o nêgo Abdias aproximou-se do coronel moribundo que arfava em seus últimos suspiros:
--- Morre  velho filho da puta!
      E chutando o corpo do coronel, arrastou-o até a barranca do rio e o atirou ribanceira abaixo. O sangue ainda esguichando do peito do coronel, manchou as águas barrentas do rio Mamoré,  acabando   com mais um  coronel de barranco, que não chegou a ver o irremediável fim do opulento ciclo da borracha.

PVH-RO, 20/08/13

EFMM: O FURIOSO E A FURIOSA



 EFMM:  O FURIOSO E A FURIOSA
 Samuel Castiel Jr.


 






   
  
Na antiga Porto Velho o lazer para adolescentes era uma coisa muito restrita. Tirando as brincadeiras  e folguedos que ainda restavam da infância, como empinar as pipas ou papagaios, futebol de grama e futebol de salão, restavam muito poucas alternativas. O aeromodelismo apenas começava a surgir, e conheci apenas o nosso vizinho Melba,  irmão do ilustre Tribuno Almino Afonso,  que solitário brincava de decolar e pousar seus aviõesinhos naquela área em frente a Catedral, onde está erguido hoje o Palacio 31 de março, sede da Prefeitura Municipal de Porto Velho. Fora isso, nossa distração de final de semana eram as matinês, as 16:00h ou primeira sessão de cinema, as 19:00h, no Cine Resky ou no Cine Brasil. Os filmes que estavam em cartaz quase sempre eram de Tarzan, faroeste americano com Gary Cooper, John Wayne, Henry Fonda, Wyatt Earp, Victor Mature, etc,  ou as chançadas brasileiras  da Atlântica, com Oscarito, Grande Otelo, Costinha, Ankito, Zé Trindade, Golias, Renata Fronzi, Anselmo Duarte, etc. Chegavamos cedo, comprávamos os ingressos, e ficávamos rodando na praça Mal. Rondon, trocando gibi,  mascando chiclete ou tomando sorvete e namorando, esperando que soasse o terceiro gongo do cinema para entrarmos para o recinto  escurinho que cheirava a mofo e era  cheio de grandes ventiladores!  Quando acabava  a sessão,  saíamos todos e os que tinham namoradas iam andando para deixá-las em suas respectivas casas, na esperança de um “ amassa” e/ou mais um beijinho final!...Os que já eram mais velhos, entravam na boate do Porto Velho Hotel, alguns até se arriscavam a dançar coladinhos, em cima de um só mosaico, as canções do Elvis Presley, Beatles ou Barry White. A volta pra casa era triste e perigosa, pois a luz apagava em toda a cidade exatamente a meia-noite! As ruas ficavam um”breu!”—como dizia minha saudosa mãe: -- Não sei como você não tem medo de se arriscar por essas ruas desertas e escuras!...Mas, realmente, as vezes não valia a pena!  Muitas vezes o pai da moça era bravo, ficava esperando a filha chegar e botava a gente pra correr!...Pra fazer uma seresta então, era preciso muito amor ou coragem! Quantas vezes a praça Aluizio Ferreira nos escondia de pais  enfurecidos que queriam quebrar nossos violões!...
     Algumas vezes, aos domingos, feriados ou datas comemorativas, a Banda Musical da Guarda Territorial vinha tocar no coreto da praça Mal. Rondon. Era também conhecida como “FURIOSA”, acho que devido aos dobrados e hinos cívicos que executava,  sempre comandada pela batuda  empolgada  de seu maestro, o Mestre Neves! Juntava muita gente pra ver aquela banda tocar! Era realmente empolgante! Mas, como sempre, em todo lugar, sempre aparece  um “espírito de porco”, alguns moleques cortavam um limão e se postavam frente aos músicos de sôpro da” Furiosa” chupando o limão! O maestro Neves  tinha que correr atrás  desses moleques, pois os músicos do sôpro não conseguiam mais tirar as notas dos instrumentos de tanto salivar! Só muitos anos depois, quando entrei para a escola de sax é que viria a entender aquela cena do maestro, com sua batuta,   correndo atrás dos moleques que iam chupar limão na frente da “Furiosa”!...
      Quando comecei a tocar sax, fiz amizade com antigos músicos saxofonistas que fizeram parte da Banda de Música da Guarda Territorial, que me relataram também outros fatos e estórias curiosos!
      Em Guajará-Mirim, município fronteiriço com a Bolívia, a 366 Km de Porto Velho, havia um clube social que era o melhor  não só do município mas de toda aquela região, e chamava-se Helênico. Sua diretoria era conhecida por ser muito rigorosa não só na admissão de novos sócios, mas também nos trajes e até nos repertório musical que tocavam em suas festas! E esse clube realmente promovia festas antológicas e tradicionais, como o Baile do Havaí, quando iam para lá pessoas de vários lugares do Estado e também de outras regiões. Pois bem, esse clube promoveu uma festa em comemoração a Independência do Brasil, no dia 7 de setembro. E para tocar nesse baile, solicitou ao Governador que enviasse para lá a Banda da Guarda Territorial, no que foi prontamente atendido. Até a relação das músicas e suas repectivas partituras foram enviadas com bastante antecedência para que a Banda pudesse ensaiar com seus músicos. Tudo pronto, a “Furiosa” partiu para Guajará no Trem da EFMM com uns quatro dias  antes para evitar transtornos.  Lá chegados, os músicos ficaram no alojamento do Exercito, onde eram muito bem tratados! Na véspera da festa, o meu amigo Dantas, vulgarmente chamado EDÔBO, saxofonista da Banda,  convidou seu colega Manelzinho, tocador de clarineta, também da “Furiosa”, para dar umas voltas a noite pela cidade. Sairam andando,  “jogando conversa fora”! Quando a lua cheia clareou a noite, os dois que eram boêmios natos, resolveram dar uma chegada no bordel, só pra ver as meninas!... Quando estavam tomando o primeiro whisky, já entusiasmados  com as “mutchatchas”, o EDÔBO sentiu que alguém o chamava, tocando em seu ombro. Virou-se e viu um homem de meia idade,  moreno claro, com cara de poucos amigos e vestindo um bleizer  caqui, que parecia mais uma farda. Perguntou ao EDÔBO:
-- Você não é daqui, de onde vem?
-- Sou de Porto Velho, eu e meu amigo Manelzinho. Somos músicos da Banda da Guarda Territorial. Vamos nos apresentar amanhã, no Helênico Clube.
-- Quer dizer que vocês são músicos da Gurada e vão tocar amanhã no Helênico?
-- Isso mesmo!
--Olhe aqui moço: eu vou lhe dar uma chance! Vou dar uma volta pela cidade e volto por aqui. Quando eu chegar, não quero encontrar mais vocês!
    Saiu sem se despedir, entrou num Jeep velho e foi embora, deixando uma fumaça de óleo diesel queimado pra trás!...
    O EDÔBO virou-se para seu amigo Manelzinho e se assustou: ele estava tremendo, pálido  e suava muito!
--Quem é esse véio filho d’uma égua pra mandar a gente ir embora?
    O Manelzinho,  quase não conseguia falar, mas disse:
--É...É ... o... o... Capitão Alípio!  Viu a gente, seus guardas, aqui nessa farra... Estamos fritos!
        Pediram a conta, e rapidamente voltaram para o alojamento.
        Depois  de passado o impacto inicial, Manelzinho explicou melhor para o seu colega que não reconheceu o temível e furioso capitão Alípio, homem forte do respeitado coronel Aluízio Ferreira, líder político de maior poder naquela época, que o nomeou para a função de delegado especial em Guajará -Mirim.
           O Edôbo depois me confessou que, naquela noite, teve pesadelos horríveis, onde um capitão troglodita e prepotente o jogava dentro de um calabouço escuro, infestado de morcegos hematófagos e escaravelhos carnívoros.

                                                                                               PVH-RO, 24/06/13 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A ÚLTIMA CAÇADA


A ÚLTIMA CAÇADA

 Samuel Castiel Jr.






                Seu principal e único lazer era a caça. Ainda adolescente acompanhava seu pai nessas aventuras no seringal São Carlos, no alto Jamari. Saiam bem cedo pela manhã e se embrenhavam mata adentro, sempre procurando rastos de animais noturnos, que só saem  a noite para se alimentar e que pudessem passar por aquelas veredas da floresta densa. Levavam consigo  armas tipo espingarda caibre 12 ou 20, munição para elas, facas e facões bem amolados, sacolas com sal grosso para salgar e conservar a carne dos animais abatidos. Levavam também  uma boa lanterna e algum alimento em conserva, pois as vezes tinham que passar vários dias em busca de um animal de médio ou grande porte. Qualquer pista servia para orientá-los. Pegadas na lama, fezes desses animais que pudessem indicar se recentes ou antigas, se continham residos tipo sementes, pedaços de fruta e que pudessem constituir numa pista. Pelos nos troncos de arvore, por exemplo, podia indicar a presença de animais de médio a grande porte, marcando seu território. Muitas vezes seguiam esses rastos ou pistas e geralmente acabavam sob o pé de tucumã ou coquinhos selvagens, onde pequenos e médios roedores vinham fazer seu repasto na escuridão da noite. Aí então, armavam sua “espera”, que era feita de pedaços de pau bem amarrados no alto de uma árvore e que pudesse suportar o peso do caçador. Lá ficavam, cada um em uma arvore, muitas vezes bem distantes uma da outra. Na total escuridão, não podiam fazer nenhum tipo de barulho, nem fumar ou riscar fósforo, pois o animal tem um olfato capaz de detectar a distancia a presença do perigo.  Por isso mesmo tinham que perceber qual era o sentido do vento, ou seja, se do norte para o sul ou do sul para o leste e etc., pois sua “espera” tinha que ficar posicionada a favor do vento, nunca contra, ou seja se estivesse esperando o animal chegar pelo norte, o vento deveria soprar do norte para o sul, caso contrario o animal  de olfato aguçado, poderia sentir a presença do homem a sua espreita. Quando o disparo ecoava na escuridão da noite, sabia que a caça estaria lá embaixo da arvore para ser por ele apanhada, esfolada e salgada. Aprendeu tudo isso e muito  mais com seu velho pai, um seringueiro que sempre caçava para suprir de carne sua família, morando solitária no meio da mata densa, onde colhia o látex das  frondosas arvores da seringa. Ali a vida era dura e tudo era muito difícil. De dia as pragas como piuns, borrachudos, e maruins, hematófogos sempre ávidos e insaciáveis de sangue. Também havia as abelhas e outros insetos que vinham atraídos pelo suor. A noite chegavam os carapanãs, pernilongos ou “suvelas” também sedentos do sangue humano.  Mas, até uma vida como essa tão sacrificada e dura, com o tempo passava a ser encarada com naturalidade pelas pessoas que ali viviam.
                         Dentre as coisas boas  que Julio aprendeu com seu pai, é que o homem só deve caçar quando for pra comer.
--- Nunca mate um animal só por matar! – dizia seu velho pai Alzenor.
                         Mas Julio gostava tanto de caçar que não pensava como seu pai. Matar um animal para ele era um esporte. Claro que se fosse uma caça de médio ou grande porte, alimentava sua família. Mas, gostava mesmo era de caçar tudo e matava desde pequenos roedores, como também pássaros que não serviam nem para comer. Atirava as vezes apenas para treinar sua pontaria, como dizia. Tinha prazer em matar os animais, fosse qual fosse, para comer ou simplesmente para jogar fora!...
                         Para caçar capivara ou anta, tinha que descer o rio de canoa, a noite, sem fazer qualquer barulho, embalado apenas pela correnteza do rio. Quando ouvia o barulho do bicho na margem do rio, focava com a lanterna e atirava. Uma anta adulta tem o tamanho de um bezerro grande, e chega a pesar cerca de 200 Kg. Quando é atingida pelo disparo, ela mergulha na água e morre  no fundo. Então o caçador tem que mergulhar para amarra-la e tentar iça-la até  a margem do rio.
                          Quando sentia no ar o odor nauseabundo de carniça, tinha que ter muito  cuidado,  pois podia ter por perto uma feroz onça pintada! Certa vez estava com seu pai em uma canoa no meio do rio quando ouviu o esturro de uma onça. Era um som aterrador! Parecia que até a terra tremia!  Encostaram a canoa na margem, onde havia uma espécie de matagal, que se afunilava parecendo uma caverna. O odor da carniça começou a ficar mais forte.  Seu pai sugeriu que fossem embora dali, porém a curiosidade de Julio fez com que ele fosse explorar o interior daquela moita. Ao entrar, Julio focou no interior escuro daquele matagal e o que viu foi uma ninhada com três filhotes de onça. Chamou seu pai que, ao ver os filhotes, saiu puxando pelo braço do Julio para a saída daquela moita e forçou uma desabalada carreira rumo a canoa. Já na canoa, ouviram bem perto deles outro esturro da onça que quase os fez cair n’agua.  O pai do Julio explicou então que a onça-mãe estava por perto, e que deveria ter saído da toca para se alimentar. Sentindo a presença dos intrusos voltou correndo. Se os pegasse não sobraria nada de ninguém pra contar a estória, pois as onças quando tem crias, ficam muito mais ferozes e agressivas! Escaparam por pouco, graças a experiência de seu pai.  Quando conseguiam abater uma onça pintada, uma jaguatirica , um queixada (porco do mato)  uma anta ou um  veado, sabiam que seus coros valiam um bom dinheiro quando vendidos para o dono do seringal ou para compradores clandestinos que passavam por lá periodicamente.
                          Tinha muito receio também de pisar em cobras venenosas que infestavam  aquelas matas. Matavam em poucos minutos caso picassem na perna de alguém, principalmente a “pico-de-jaca”,  a surucucu, a cascavel, a  coral verdadeira, etc.
                          O macaco gogó-de-sola era outro bicho que não queria encontrar por perto, pois vinha sorrateiro pelas arvores e, de repente, saltava no pescoço das vitimas, sufocando-as até a morte!
                          Aprendeu também com seu pai algumas sabedorias de sobrevivência na selva. Quando estivessem perdidos ou sem alimentos, poderiam alimentar-se de larvas ou “tapurus” encontrados em algumas espécies de cocos selvagens, pois são ricas fontes de proteínas, assim também como gafanhotos. Da mesma forma poderiam comer frutas selvagens, tendo o cuidado de não comer aquelas que não tinham sido bicadas pelos passarinhos, pois essas geralmente são muito venenosas ou toxicas.  Na falta absoluta de água, poderiam colher água da chuva em folhas de bananeiras, ou mesmo cortar  o caule de alguns tipo de bromélias, os quais possuem água límpida e potável  que serve para matar a sede.
                         Certo dia, caminhando sozinho  pela floresta, abrindo “picadas” na mata com seu facão para seguir o rasto de um roedor, deparou-se com um bando de grandes macacos “ pregos ” ou guaribas que estavam na copa de uma imensa samaumeira. Imediatamente parou, aproximou-se sorrateiramente da arvore e, engatilhando sua espingarda apontou para o alto. O alvo era uma macaca que carregava na costa um macaquinho. Quando ela sentiu a presença do caçador, rapidamente pulou para um galho bem visível  ao caçador e, num gesto totalmente inesperado, pegou o macaquinho e mostrou  para o caçador, que já estava com o dedo no gatilho. Seus olhares se entrecruzaram. Sem entender porque, Julio foi tomado de um súbito e total arrependimento que o fez baixar a espingarda. Nesse dia ficou perdido na mata, não conseguia voltar pra casa, pois não encontrava mais o caminho de volta. Quando finalmente chegou a  sua casa, teve uma febre muito alta que o fez delirar a noite toda. Nesses delírios, falava coisas incompreensíveis. Sua mulher apenas entendia palavras que falavam de  perdão e um juramento que não mais iria caçar nem matar qualquer tipo de animal.  Contam que quando a febre passou, o Julio ficou abobalhado  das ideias e   nunca mais   voltou  a caçar. Quando via um macaco,  onde quer que fosse chorava copiosamente e tinha febres muito altas! Ninguém sabia o quê, mas todos juravam que algo muito estranho acontecera ao Julio naquela sua última caçada,  quando voltou triste e calado  da mata, teve febre alta e delírios a noite toda. Achavam também que foi aquilo tudo que deixou pra sempre o pobre Julio “mole dos miolos”!...Alguns juram até hoje que ele foi  mais uma vitima da “mãe-da-mata”!...


PVH-RO, 12/08/13

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

UMA QUESTÃO DE FÉ

UMA QUESTÃO DE FÉ
Samuel Castiel Jr.












              Até hoje os terreiros de umbanda existem em grande número na cidade  de  Porto Velho. Se mergulharmos no passado, vamos encontrar essa cultura enraizada tanto no negro quanto no  índio. Segundo estatísticas recentes, já contam com mais de cem terreiros umbandistas em pleno funcionamento. São frequentados por pessoas de todas as classes, desde as mais simples até empresários, passando por profissionais liberais e também políticos. Todos vão  em busca de objetivos os mais diversos possíveis, porém todos ou quase todos tem uma coisa em comum: a fé. Aqueles que não acreditam e vão lá apenas por mera curiosidade, geralmente não são bem vistos pelos pais de santo ou babalourixás. Quando os tambores começam a tocar, forma-se uma grande roda de homens e mulheres que começam a dançar. A medida que o ritmo vai ficando mais frenético, aproxima-se o ápice do ritual que é a “incorporação” do caboclo, e que pode ser em qualquer pessoa, ou em mais de uma, desde que ela seja médium. Antes disso porém, ainda com os tambores batendo suavemente, existe a necessidade de extrema concentração para que a “entidade” possa baixar nos seus “cavalos” como eles chamam esses irmãos que recebem os caboclos. As pessoas vão rodando e dançando, dançando e rodando, procurando o máximo de concentração.
         No passado, alguns terreiros se destacaram, como por exemplo o Terreiro ou Batuque  de São Benedito ou Samburucu, da Dona Chica Macaheira, o Terreiro ou Batuque de Santa Bárbara da Dona Esperança, cujo pai de santo, um dos mais famosos era o Albertino, o Terreiro ou Batuque de São Sebastião, cujo dono e pai de santo era o Celso. Esses certamente       foram    os   Batuques   mais frequentados e mais importantes nas décadas de 50 e 60.
      Cangati, Nelson, Melba e mais alguns outros, eram amigos de festas e gostavam mesmo de se divertir. Combinaram que naquele sábado, antes iriam tomar uns whiskys e quando fosse lá pelas tantas,  quando o Terreiro de Santa Bárbara fosse começar, todos iriam pra lá, pois queriam ver de perto o batuque dos tambores e também – quem sabe? – pegar alguma daquelas neguinhas que ficavam rodando de pés descalços naquele terreiro. A proposta partiu do Cangati e foi logo aceita por unanimidade. Próximo das 22:00h, já com alguns whiskys na cabeça, o Cangati e seus amigos partiram para o Terreiro de Santa Barbara. Estavam todos vestindo roupas brancas, como era recomendado para visitantes que estivessem dispostos a assistir a sessão de incorporação. Chegaram, cumprimentaram o pai de santo Albertino, que pediu a eles que tirassem seus sapatos antes de ingressar no Terreiro. Na sequencia postaram-se sentados nos tapetes que cobriam o chão, em volta de todo o círculo do terreiro. Ouviu-se então o toque dos primeiros tambores e imediatamente a roda de pessoas foi se formando, dando as primeiras voltas naquele salão de chão-batido. O Albertino vinha na frente, todo de roupa branca, com um pesado colar de conchas do mar e um turbante também branco. Depois de algumas voltas, o Cangati começou a ficar inquieto, pois queria beber whisky ou qualquer outra bebida. Perguntou aos amigos se não iriam servir nada mas ninguém sabia informar. O som dos tambores começava a ficar mais alto! O Cangati esperou o Albertino passar e perguntou a ele:
--E aí Albertino, não tem nenhuma bebida pra nós?
          Acontece que o Albertino estava concentrado, de olhos fechados, e ainda com o som do batuque, não ouviu nada e passou no ritmo do batuque, com os braços ora  pro alto ora pra baixo, como se cumprimentasse alguém invisível!... O Cangati, ainda chamou pelo Albertino mais duas vezes, mas não teve nenhuma resposta. Na terceira vez, já irritado e possesso, esperou o Albertino passar dançando bem  perto dele e meteu a mão na bunda do Albertino, que deu um grito:
--Não faça isso, meu rapaz!!! Assim você corta a corrente!...
         O Cangati se levantou e chamou os outros amigos que o seguiram rumo  a porta da saída. Quando já iam saindo, um dos amigos do Cangati caiu no solo, tendo convulsões e se retorcendo todo. Todos tentaram juntá-lo para socorrê-lo mas foi então que ele se levantou sozinho, o rosto contraído, olhos vermelhos e quase saindo das órbitas, cabelo todo arrepiado, com a voz muito rouca e falando alto, palavras incompreenssivas, em outra língua,  foi pegando o Cangati e, com uma força descomunal, o atirou no meio da rua, numa poça de lama. Na sequencia, pegou um por um dos amigos e os sacudiu no mesmo rumo do Cangati. Depois caiu outra vez ao solo, teve outras convulsões e dormiu um sono profundo!.. O Cangati e seus amigos, todos sujos de lama não estavam entendendo nada! Correram pra juntar outra vez o amigo que dormia profundamente. Foi aí que o Albertino apareceu na porta do Terreiro e disse para o Cangati:
-- Olha aqui, rapaz! Nunca mais volte aqui pra zombar do que você não conhece nem merece. Tudo se resume numa só frase: É uma questão de fé! E pelo que eu vi, você e seus amigos são uns incrédulos!  Não tem (féde mais) nem (féde menos! São uns ateus  atoas!

          Nunca mais o Cangati e seus amigos voltaram a qualquer dos Terreiros. Sempre eram vistos aos domingos, na missa das 8, atentos ao sermão do padre Emílio.

PVH-RO, 08/08/13

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

VALAS

VALAS
Samuel Castiel Jr.










         A antiga cidade de Porto Velho possuía inúmeras valas. Sem rede de esgoto, as valas estavam em quase todos os bairros. E por elas escorriam desde águas pluviais até substâncias mais poluídas e contaminadas, as vezes até mesmo  excrementos, onde habitavam ratos, baratas, insetos, cobras e lagartos. Na época das chuvas torrenciais, essas valas serviam para drenar as águas e levá-las em direção ao rio. Eram profundas e largas. Passavam na frente ou no quintal das casas. As pessoas tinham que improvisar  pequenas pontes para entrar e sair de suas residências. Algumas delas, dependendo do terreno, continham lodo, lama escorregadia e até mesmo movediça.
          Uma senhora pioneira desta cidade, chamada Dona Anita, esposa do Seu Arruda, foi vitima dessas valas. Nos fundos de sua casa, na rua Campo Sales, próximo a Av. 7 de Setembro, passava uma enorme vala que desaguava em uma galeria de águas pluviais  e esgotos, estendendo-se por baixo de onde está hoje a loja Marisa, passando também por baixo do Cine Lacerda, do antigo Banco Sudameris para desembocar no rio madeira. Após uma forte e torrencial chuva, a vala transbordou e inundou o quintal da Dona Anita, que foi ver o que estava acontecendo, e na tentativa de desobstruir a vala, caiu e foi arrastada pelas águas revoltas e barrentas. Sua irmã Sidrone que viu tudo, correu e chamou quem estava por perto. Dona Anita então foi resgatada da galeria, em baixo do Cine Lacerda, puxada pelos cabelos, pois usava longas tranças. O curioso é que saiu incólume, sem nenhum arranhão sequer e, ainda por cima, com os óculos de grau que usava! Ela era espírita!...
         Talvez por uma questão cultural  importada do sangue português, era hábito algumas residências abrir uma pequena venda  geralmente de cachaça ou de alguns gêneros de primeira necessidade, com uma espécie de janela que dava acesso para a rua. Ali se postavam históricos pinguços e boêmios que passavam o dia e até altas horas da noite bebericando pinga e falando da vida alheia.
        “Capote” era um criolo grande, exímio tocador de violão. Tanto tocava como bebia pinga. Bebia para ter inspiração – dizia ele. Gabava-se  ainda que bebia bem e tinha sorte, pois era capaz de beber sozinho mais de duas garrafas de pinga sem dar vexame e voltando pra sua casa já pela madrugada,  de bicicleta e com seu violão pendurado nas costas. Tocava de tudo, mas principalmente boleros e samba-canções com os repertórios da década de 50 e 60, tipo Anisio Silva, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves e Lucio Alves. Fazia também algumas internacionais tipo Bienvenido Granda ( El bigote que cantava) e Nat King Cole. Bastava que alguém pagasse para ele um “gole” e o negão cantava e se acompanhava ao violão como ninguém. Mas, na véspera de um feriado prolongado o negão exagerou e não se deu bem nem teve muita sorte como dizia.  Costumava ir de bar em bar, tomando todas, tocando e cantando. Quando encontrava alguém que lhe pagasse uma pinga, ali é que ele  ficava! Pois bem, depois de tocar e beber em alguns bares, chegou na casa do Seu Osório Manco, que possuía uma dessas vendinhas abertas tipo janela para a rua, na Tenreiro Aranha, e que tinha alguns banquinhos do lado de fora, bem como uma enorme vala na frente, a qual vinha lá das bandas do bairro da Olaria e terminava na avenida 7 de setembro. Para chegar até a vendinha, tinha que passar por uma ponte improvisada com pedaços de madeira. “Capote” chegara  no Seu Osório Manco no final da tarde de um sábado, com sua bicicleta e com o violão nas costas. Já tinha bebido em vários botecos onde era “habituè” em sua via sacra. Estava  visivelmente embriagado. Sentou-se e pediu uma dose de Cocal, cachaça paraense e uma de suas preferidas, pelo sabor e pela transparência, pois era quase incolor. Pegou seu violão e começou a cantar e tocar, dedilhando com maestria  músicas de seu vasto repertório. Logo foram chegando outros fregueses do Osório Manco e todos faziam coro e aplaudiam no final de cada canção cantada pelo “Capote”. Tinham direito a fazer pedidos desde que pagassem seu próximo “gole”. E assim a coisa foi rolando. A noite chegou, alguns se foram mas outros ficaram ou chegaram e a bebedeira entrou pela madrugada a dentro. Já quase meia noite, o Osório Manco disse que ia fechar seu negócio, pois tinha que ir dormir e sua patroa já o chamara pela décima vez!...
--Calma aí Osório, afinal amanhã é domingo e segunda-feira vai ser feriado! Ainda dá pra tomar mais uma –dizia o “Capote”, já com a voz muito pesada!
          Assim é que conseguiram ficar lá até 3 horas da manhã, quando o Osório Manco fechou a sua venda e anunciou a todos:
--Olha aqui, gente: agora tô fechando mesmo. Quem quiser ficar aí fora que fique!
--Ok Osório, mas antes de fechar, deixa uma garrafa de Cocal pra gente. O pessoal já fez a “vaquinha” e aqui tá o dinheiro!
         Osório Manco, claudicando como sempre, foi lá prá dentro e voltou com a garrafa de pinga.
--Aqui está, prá não dizer depois que eu sou sacana! Mas acho que vocês todos deviam ir dormir agora. Esse bairro é perigoso, tá muito escuro, pode aparecer alguém, algum assaltante, sabe como é!..
--Tudo bem Osório, você é caba bom! Deixa pra  gente só mais uns dois ou três limões que é pro tira-gosto. Daqui a pouco vamos todos embora – disse-lhe o “Capote”.
 --Leva aquela do Silvio Caldas “Capote” – pediu-lhe um dos amigos. Aquela que fala das “Cinco Letras que Choram”...
         Somente a lua clareava aqueles notívagos. Os acordes afinados e plangentes do violão podiam ser ouvidos a distância, tal era o silêncio da madrugada!...Mas aos poucos todos foram saindo e deixaram o  rebelde “Capote” sozinho, que relutava em ir pra casa.
         No domingo quando o Osório abriu novamente a janela da sua venda, viu tudo desarrumado, a garrafa de pinga vazia, copos quebrados no chão, pedaços de limão atirados por todos os lados, junto a  incontáveis  baganas de cigarro. Porém, o que mais chamou a atenção do Osório Manco, foi ter visto a bicicleta do “Capote” ainda estacionada  e apoiada  no “descanso” do mesmo jeito que ele tinha deixado quando chegou no dia anterior. Pensou logo que ele teria ido a pé, levado pelos amigos boêmios que ficaram com ele naquela madrugada de seresta. Mas, quando foi limpar aquela sujeira toda que os bebuns haviam deixado, olhou para o interior da vala. E o que viu quase o fez desmaiar: o “Capote” estava em pé, no fundo da vala, enterrado na lama até acima dos joelhos, com seu violão pendurado na costa. Chamou por ele, gritou, mas não havia nenhuma reação. Resolveu chamar sua mulher e outras pessoas que passavam na rua, já voltando da missa. Juntaram-se vários curiosos e o Osório Manco correu pra chamar um guarda que passava na outra rua. Afinal, a polícia tinha que ser chamada! Quando o guarda chegou, pediu uma corda e desceu até o fundo da vala, constatando o que todos temiam: o “Capote” estava morto!
--Coitado do “Capote” – dizia o Osório Manco. Morte triste! Morreu em pé!
       E algum dos curiosos,  mais atrás, quase na orelha  do Osório Manco arrematou:
--O “Capote” era duro na queda!...

PVH-RO, 07/08/13

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O POETA NO CEMITÉRIO

O POETA NO CEMITÉRIO

Samuel Castiel Jr.













Levei um amigo a sua última morada.
Que perverso esse triste final
De um valente guerreiro que se acaba em nada,
Como se a morte fosse o sinal
De um inexorável adeus a nos lembrar
Que  riqueza,  empáfia  ou  soberba
De nada valem nessa jornada!...
Enquanto seu corpo inerte descia
Na cova de coroas coberto,
Enquanto rezava e palmas  batia,
Vi  bem perto flores que se abriam
Lindas no orvalho, de um lilás cintilante!...
Não resisti e num impulso eu colhi
Uma foto de rara beleza no meu celular...
Rústicas,  silenciosas, imponentes
Mesmo sozinhas,  no  cemitério  isoladas,
Como  a completar  adornos  comoventes
Na mais longa e solitária de  todas  caminhadas!...
E com elas mais uma lição  aprendi:
Feliz o poeta que vê e sente
A beleza que vem sutil  da flor,
Uma singela mensagem que diz
Apesar de mortal  pra  ser feliz,
Basta viver a vida e cultivar o amor!...

                                                                                                PVH-RO, 05/08/13 

PROGRAMA "MESA DE BAR"

PROGRAMA “MESA DE BAR”
Samuel Castiel Jr.









Ah!que saudade que sinto
Daqueles  sábados quentes
Quando todos  no mesmo recinto
Cantavam, enlevavam  suas mentes!...

Ao som do cavaco ou do violão,
Lá estavam todos, desde Fernandinho
“ Beira-Mar” armando no chão
Sua batera no mesmo cantinho!

Até o Colombo sem cerimônia
Ligando a mesa  pra começar
Show  inédito  da “ Transamazônica”!
Que gloriosamente foi ao ar

Com grande  audiência radiofônica,
Nos quatro cantos de toda a  cidade
Onde de tudo só a alegria era a tônica,
Onde não se contava mentira, só verdade!

Chegava  o Gerudio mais logo o Genésio
Juntavam-se a eles o Nico e a Rose da flauta,
As mesas todas  iam se ocupando,
E as dezoito em ponto sempre sem falta


Entrava no ar e até as vinte horas ia,
O sol já descambando  cor de chama
Era gente que  chegava, gente que saía!..
Daquela calçada  que virou  da fama!

No meio de todos  o Samuel dizia
Anunciando como num conto de fada
Criando a expectativa e até a poesia,
“Tudo pode acontecer, inclusive nada”!

O Hokney co’a prancha  na mão anotando
O nome  das pessoas  que iam participar
Cantando, tocando ou até declamando,
Em mais uma edição do Mesa de Bar!

Chegavam logo os irmãos Vitor Um,
 Vitor Dois e na sequência a irmã Izabella
Ávido pra cantar sempre a “CINDERELA”
Soltava a voz,  acordava  até o sonolento bebum!...

Todos chegando sem falar do alheio,
Tocando ou soltando a voz pra cantar,
Na animação geral só faltava chegar
E chegava então João do Correio!...

O Rubens Parada ficava  pro final,
Com seus boleros e canções  castelhanas
Era  nosso mais internacional,
E  a Eliete sentia sensações estranhas!...


O Catarino com a dança da avestruz,
O Murta que de urucu se pintava,
Lucivaldo carregando sempre a mesma cruz
Da fã que a ele  tanto  amava!...

Foram  anos que não voltarão jamais,
Que passaram e nos deixam a recordar,
Uma verdadeira confraria de cristais,
 Servidos aos sábados no “Mesa de Bar”!


PVH-RO, 01/08/13