sexta-feira, 2 de junho de 2017

CORVOS NEGROS DE SOMOE

CORVOS NEGROS DE SOMOE 

Samuel Castiel Jr.























CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE
NESSA ALGAZARRA FESTIVA QUE FAZES
VOANDO SOB OS VERDES  COQUEIRAIS 
COM TEUS GRUNHIDOS ROUCOS,  ESTRIDENTES 
QUE MAIS PARECEM GRITAR PARA O HOMEM SURDO E INTOLERANTE 

TODOS SEUS MALES,
MOSTRANDO-LHE COMO A VIDA É BELA E SIMPLES...

CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE
PORQUE NÃO MANDAS-LHE  UM REPRESENTANTE TEU
COMO MANDASTE  PARA ALLAN POE
QUE REPITA AOS  OUVIDOS DESSE ATEU
INSISTENTEMENTE 
QUE O BEM MAIOR DA VIDA É A PAZ!...
QUE SE NÃO DESPERTAR  O PLANETA VAI
MORRER DESÉRTICO NA GUERRA E NO FOGO 

SEM TER NINGUÉM  NUNCA MAIS 
QUE CHORE OS SEUS TRISTES  AIS!...

CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE 
PORQUE TU, QUE ÉS AVE NEGRA E  AZARENTA 
MARCADA POR TODO PRECONCEITO,
PORQUE  TU NÃO VENS  LOGO DIZER 
QUE O SAPIENS HOMO PERDEU O SENSO
NO RASTRO  DA SOBERBA E DO PODER ?.

CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE
QUE REPRESENTAS  O BELO, O SIMPLES A NATUREZA 
NESSE TEU HABITAT SELVAGEM E VERDE
COM O MAR AZUL A TUA   FRENTE, O VENTO E O FARFALHAR 
DAS PALMEIRAS E DOS  COQUEIRAIS...
VEM LOGO E REPETE  AO HOMEM QUANTO É BELA A VIDA,
SEM GUERRA, NA QUIETUDE SINGELA DA PAZ!...

CORVOS NEGROS DA ILHA DE SOMOE 
DIZE-ME QUANDO SERÁ A TERRA OUTRA VEZ
O PLANETA AZUL DO UNIVERSO
EXPLODINDO EM VIDA  E  EM CORES 
SEM O FANTASMA PERVERSO
DA DESTRUIÇÃO, DA INSENSATEZ ?


E PASSA UM BANDO DE CORVOS 
EM VÔOS RASANTES SOB OS COQUEIRAIS:

-- AH! NUNCA, NUNCA MAIS!...





OBS: Escrito na ilha de Somoe, em Punta Cana - República Dominicana 

22/05/17.

sábado, 6 de maio de 2017

A REBELIÃO

REBELIÃO

Samuel Castiel









   


      Maike era o nome dele. Assaltante de Banco, perigoso é procurado em todo país, inclusive no seu próprio país, a Argentina. Branco, alto e louro, tinha olhos azuis e tatuado com sÍmbolos diabólicos e caveiras em quase todo o corpo. Maike foi procurado pelo Escrita Fina para pagar a taxa mensal cobrada por Tião Medonho, um negro brutamonte, que comandava os detentos a ferro e fogo! Era pra pagar as despesas do túnel. Porém Maike se negou a pagar e ainda ameaçou entregar tudo.
-- Não vou contribuir com porra nenhuma! -- disse o Maike. Diga pro Tião  Medonho pra parar de mandar me cobrar, pois considero isso um insulto -- e cuspiu nos pés do Escrita Fina.  Não acredito nesse plano que vai acabar ferrando todo mundo. E se ele continuar me enchendo o saco entrego tudo de bandeja.  Não tenho medo dele!
-- Mas Seu Mike...
--Não tem mais nem menos. Vaza daqui seu veado senão te quebro no meio!...
   Escrita Fina voltou cabisbaixo até chegar ao Tião Medonho.
-- Filha da Puta esse gringo! Pois ele vai ver uma coisa. Quem ele tá pensado que é?
-- Sei não Tião. Esse cara além de não  contribuir com nada pode estragar tudo, ferrar todo mundo.  Temos que ter calma.
-- Fica frio Escrita. Vou mostrar pra ele quem manda aqui!
    O Maike já tinha conquistado a liderança de um grupo dissidente que fora humilhado pelo Tião Medonho. Durante o banho de sol diário eles não se misturavam e ficavam se encarando e produzindo provocações. Muitas vezes iam as vias-de-fato e precisavam ser separados pelos agentes penitenciários. Os brigões então eram levados para o calabouço, chamado de "solitária" onde ficavam dias sem ver a luz do sol, a pão e água.
     Os dias iam se passando e com eles a tensão tomava proporções crescentes. O dia da fuga pelo túnel se aproximava. O túnel com mais de 100 metros ficara pronto. O dia marcado para a fuga seria num sábado, quando a segurança ficava menos ativa. Seria no horário da meia noite. Após saírem do túnel, já fora do presídio, todos fugiram tomando rumos diferentes, para dificultar suas recapturas. Tião Medonho estava nervoso e irrequieto.  Chamou o Escrita Fina e disse-lhe:
-- Escrita, alguma coisa  tá me incomodando. Nunca tive tão nervoso assim. Tô sentido algo estranho. Preciso me acalmar.
-- Calma meu querido chefe. O Escritinha aqui sabe como fazer você relaxar.
     Aproximou-se do Tião Medonho e, segurando seu queixo, com a outra mão tocou  com leveza o seu sexo. Aos poucos foi sentindo aquele volume crescer até  ficar rijo na sua mão. Tião Medonho então jogou o Escrita Fina na sua cama virando-lhe de bruço.
Em alguns poucos segundos, na escuridão da cela, seus gemidos foram ouvidos pelos demais detentos. O que se seguiu foi uma explosão e gritos de pavor, impropérios e pedidos de socorro. Vários disparos de arma de fogo. Tião Medonho de um salto pegou uma pistola que mantinha sob seu colchão.
-- Vamos embora Escrita. Chegou nossa hora. A liberdade nos espera. Tirou de sua cintura as chaves das  celas deixada na véspera pelo agente penitenciário que era seu cúmplice e fazia parte do plano. Os detentos começaram a tocar fogo nos colchões e a fumaça se espalhou rapidamente. Tião Medonho gritou para o Escrita Fina:
-- Comece a abrir as celas Escrita, mas só abra daqueles que estão com a gente. Aquele bando de frouxos que não quiseram se juntar a nós vão pegar fogo junto com os colchões.
--E o Maike, o que fazemos com ele?
--Esse é por minha conta!
    Correndo abriram as celas dos seus comparsas, com o Tião Medonho dando as instruções:
-- Corram todos para a cela 29 e entrem no túnel. Lá fora espalhem-se pra nunca mais  os malditos policiais nos encontrarem...
     O negão Tião Medonho chegou na cela de Maike com a pistola em uma das mãos e um ferro pontiagudo retorcido na outra. Era um chucro  feito especialmente para acabar com a vida de Maike. Aquele gringo filho da puta que o desafiara por muito tempo. Agora chegara a hora da vingança – Pensava Tião. A fumaça era densa, gritos eram ouvidos em todas as direções. Abriu a cela de Maike e começou a gritar.
-- Agora sai pra morrer seu gringo filho da Puta e covarde. Vou te soltar pra te matar!
   Mas ninguém saía da cela, ninguém respondia, Não havia ninguém na cela. E quando Tião tentou abrir a porta da cela, ela estava aberta. Na sequência `tudo aconteceu muito rápido. O cano frio do revolver de Maike encostou na cabeça de Tião Medonho.
-- Não se mexa nêgo safado! Agora você vai morrer! Quando ia apertar o gatilho, uma explosão no seu ouvido o atirou ao solo. Era o Escrita Fina que, vendo seu ídolo Tião prestes a morrer, veio por trás e, a queima-roupa, disparou na cabeça de Maike. Já moribundo, no chão, Maike debochou de Tião:
-- Você tem inveja de mim! Você é negro, eu sou branco e louroi, tenho os olhos azuis...
-- De que vão te servir esses olhos azuis, gringo maldito? Para os vermes comer ?...
    Uma golfada de sangue saiu pela boca e pelo seu nariz. Maike estava morto.
-- Vamos embora Escrita! Precisamos alcançar o túnel na cela 29. Corra com todas as suas forças! Estamos próximos da liberdade!.
    E saíram em desabalada carreira, envolvidos pelo fogo e uma camada densa de fumaça que os sufocava e os fazia tossir continuamente. Passaram e pisaram em cadáveres e cabeças decepadas e espalhadas pelo chão.
    Quando penetraram no túnel, a fumaça não dava quase nenhuma visibilidade.
    As lâmpadas estavam ligadas mas não dava pra ver quase nada no interior do túnel. Mesmo assim Tião Medonho e Escrita Fina corriam em desabalada carreira.
    Tião começou a estranhar as vozes e gritos que vinham lá de fora do túnel. Será que aqueles malditos comparsas estavam discutindo entre si?  Estava chegando ao final. Com a respiração ofegante, olhou pra trás e viu o Escrita Fina que parecia ser a sua sombra.
-- Corre home!
    Quando o Tião Medonho botou a cabeça pra fora do túnel, quis morrer: um pelotão inteiro de agentes policiais os esperava, com cães adestrados mostrando-lhes os dentes afiados. Várias viaturas policiais piscavam intermitentemente suas luzes vermelhas.
-- Não deu certo desta vez  Escrita. O maldito gringo nos entregou!...




PVH-RO,, 05/05/17


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O BARBA

O BARBA
Samuel Castiel Jr.












 Sempre detestou usar barba. Quando suava, coçava e dava alergia. Tinha que mantê-la sempre aparada. Dava trabalho. Preferia o martírio de um barbeador todas as manhãs. Além do mais, sua esposa sempre lhe dizia preferir homem de barba feita. Sentia coceira durante os  carinhos no conchego da cama.  Foi quando o Banco em que trabalhava anunciou que iria fazer demissões em massa com o objetivo de contenção de despesas, pois a crise estava se aprofundando. Entrou em pânico. E se ele fosse demitido?  O que iria fazer? Só tinha o curso médio. O que sabia mesmo fazer era a rotina daquele  Banco. Pensou, pensou. Conversou com a Carmita, sua esposa, passou algumas noites sem dormir e, finalmente,  ela decidiu que iria  fazer uma promessa. Caso ele não fosse demitido, deixaria sua barba crescer durante os próximos cinco  anos. Ele ainda argumentou, porque a barba?
__ Alfredinho, a promessa pra ser atendida tem que ser pra valer, ou seja, tem que ser exatamente com aquilo que priva  você, que  representa  pra você  um sacrifício! Entende?
__ Mas porque tanto tempo? Cinco anos!...
__ Pelo mesmo motivo, Alfredinho. Tem que ser pra valer!...
              Apesar de relutar, acabou concordando. Fez e sacramentou a promessa:  caso não fosse demitido do Banco,  deixaria sua barba crescer durante cinco anos, apenas mantendo sua higiene e aparando-a periodicamente.
              Para sua alegria, a relação dos demitidos saiu e seu nome não estava lá. A Carmita tinha razão, promessa tinha que ser pra valer!...
             Olhava-se todos os dias no espelho e via sua barba crescendo. Já não estava tão negra, pois alguns fios brancos começavam a surgir. Aos poucos foi mudando seu visual. No início achava-se esquisito. Parecia ser uma outra pessoa. Mas aos poucos foi se acostumando ao ponto de achar que sempre convivera com aquela barba. Por sua vez, Carmita já não o tratava como antes no aconchego da cama. Parecia um tanto fria, desinteressada no sexo. Mas, aquilo era perfeitamente compreensível. Agora ele era um homem barbado e ela sempre lhe dizia de sua preferência por homem bem escanhoado.
             O tempo foi passando,  até que completou o período prometido. Mas nem ele nem a sua esposa Carmita deram conta. Quando revirando sua gaveta no Banco, deparou-se com um rascunho que marcava a data da promessa. Exatamente cinco anos se passaram. Nada melhor então do que fazer uma surpresa  para a  Carmita. Preparou-se para ir a barbearia e tirar aquela promessa, ou melhor, aquela barba. Chegaria em casa de surpresa, sem aqueles pelos incômodos no rosto. Quando estava saindo do Banco, seu gerente o chamou e disse-lhe:
--- Alfredinho, vou precisar dos seus serviços hoje a noite. Vamos ter que fazer um serão, pois o pagamento do Governo chegou agora, e precisamos fazer esses lançamentos ainda hoje, pois amanhã  teremos que lançar esses créditos.
__ Mas...
__ Não tem mas nem menos. Sei que você gosta e precisa de umas horas extras, não é?
__ Ok. Vou só almoçar e vou também a barbearia tirar essa barba. Depois volto direto pro Banco.
     Pegou seu celular e ligou para Carmita, avisando o imprevisto e que teria que fazer aquele serão, pois foi um pedido direto do seu chefe.
     O serão acabou realmente tarde, quase meia noite, quando Alfredinho voltou para sua casa.
     A casa estava em absoluto silêncio. Estacionou seu carro na garagem e entrou. Carmita estava dormindo profundamente, pois roncava que ele podia  ouvir antes de entrar. Não quis acordá-la. Foi direto para o banheiro. Tomou uma ducha fria e, cuidadosamente, no escuro,  acomodou-se na cama, ao lado da esposa. Quando já estava quase a pegar no sono, Carmita  acordou-se  com o próprio ronco e aconchegou-se ao corpo do marido. Quando acariciou seu rosto, de sobressalto sentou-se e disse quase gritando:
__ Zezão, o que você ainda faz aqui home!!! Vaza, vaza, vaza que o barbudinho tá pra chegar!...
--- Heim?...



PVH-RO., 10/02/17.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SALA DE ESPERA
Samuel Castiel Jr.




 
    

     Ninguém gosta de esperar. Mas esperar na sala de médico ainda é pior. Talvez se equipare a sala de dentista quando você fica ouvindo aquela broca comendo solta. Mesmo sabendo que a anestesia evita a dor, aquele ruído de alta rotação parece que tem a propriedade de queimar os nervos!
    Fazendo essas conjecturas e comparações, totalmente absorto com meus pensamentos, encontrava-me na sala de espera do proctologista para o exame anual do novembro azul. Foi quando a batida em minha costa tirou-me dos meus pensamentos. Era o Jurandir, um velho amigo da época ginasial.
--Ei rapaz! Quanto tempo! Vais fazer também?...--e mostrou-me o dedo médio em riste.
--Não, quer dizer, vim só pra uma consulta de rotina.
--Já sei!  --exclamou triunfal o Jurandir! Estás com Hemorroida, não é? Dizem que esse médico  é muito bom!
    Parecia que o Jurandir se deliciava com o meu desconforto.
--Não Jura, não é hemorroida não!
    Ele não me deixava falar:
--Já sei então: é só fissura anal.
    Não tive mais dúvidas que o Jura queria mesmo era infernizar minha vida. Sabia que todos os pacientes daquela sala estavam se esforçando para segurar o riso. Ele falava alto, gesticulava,  não dava tempo pra defesa!
--Tive um amigo que sofreu muito de fissura anal e depois de hemorroida. Dizem que pode virar câncer...
--Calma Jurandir, não tenho nada disso! É só uma consulta de rotina.
--Eu sei, eu sei. Ninguém assume que tem hemorroida. Mas quando começa sangrar meu caro, não tem mais jeito, só o bisturi.
    O Jurandir continuou a falar até que a porta do médico se abriu e, sorrindo, o médico apareceu. Vestia um jaleco branco e meus olhos logo buscaram  suas mãos: eram enormes! Um frio correu minha espinha dorsal. Dirigiu-se a todos:
--Quem está na vez?
    Todos se entreolharam mas todos sabiam que a vez era minha.
--Pode ir Jurandir --disse-lhe eu apressado.
--De jeito nenhum! Você chegou primeiro, a vez é sua!
--Vocês vão ficar discutindo até quando? --falou o médico. Não posso ficar esperando. A recepção está cheia.
    Finalmente o Jurandir decidiu-se a entrar na minha vez. Mas antes que a porta se fechasse ainda fez um comentário em voz alta como sempre:
--Não fique nervoso Valfrido, esse medico é muito jeitoso!...
    A vontade que eu tinha naquele momento era uma mistura de vergonha e desejo de esganar o inconveniente Jurandir. Precisava fazer ou dizer alguma coisa.
--É isso aí gente! O Jurandir sempre foi assim, muito brincalhão, extrovertido!...
    Quando o médico novamente abriu a porta e anunciou:
--O próximo por favor!
    Houve um silêncio que foi quebrado pela voz do próprio Jurandir que vinha lá de dentro ainda arrumando a roupa e fechando o cinto:
--Agora é você Valfrido, não tem escapatória!
    Como não viu mais o amigo no recinto, comentou com o médico e com os demais pacientes:
--Eu sabia, doutor! Esse cara sempre foi um frouxo! Vai ver que fugiu com medo do seu dedo!...
Mas tinha me garantido que era apenas uma fissura anal...
--Próximo --chamou o médico.

PVH-RO., 13/01/17